STF Forma Maioria para Manter Ministros no Julgamento de Bolsonaro por Tentativa de Golpe
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| Fotos dos Ministros do STF Moraes, Zanin e Dino |
Brasília, 19 de março de 2025 – O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria nesta quarta-feira para rejeitar os pedidos da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que buscavam afastar os ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Flávio Dino do julgamento da denúncia que investiga uma suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. A decisão reforça a continuidade dos três magistrados no colegiado da Primeira Turma, que analisará se Bolsonaro e outros 33 acusados se tornarão réus no caso.
A votação no plenário do STF foi iniciada após recursos apresentados pela defesa de Bolsonaro e de aliados como o ex-candidato a vice-presidente Walter Braga Netto e o general Mário Fernandes Medeiros. Os advogados argumentaram que Moraes, Zanin e Dino seriam parciais, apontando, entre outros motivos, a atuação de Zanin como advogado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) antes de integrar o STF, o histórico de Dino como adversário político de Bolsonaro e a relatoria de Moraes em inquéritos que envolvem o ex-presidente. No entanto, o relator dos recursos, ministro Luís Roberto Barroso, votou contra o afastamento, citando o artigo 252 do Código de Processo Penal, que regula os casos de impedimento de magistrados, e afirmando que não há elementos concretos que justifiquem a suspeição dos ministros.
Até o momento, o placar está em 6 a 0, com os votos de Barroso, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Luiz Fux, Gilmar Mendes e Dias Toffoli acompanhando o relator. A expectativa é que a decisão seja confirmada por unanimidade, uma vez que os demais ministros — incluindo os próprios Moraes, Zanin e Dino, que também votam no plenário — tendem a seguir a mesma linha. A análise do caso reflete o entendimento de que não há fatos jurídicos objetivos que comprometam a imparcialidade dos ministros questionados.
A denúncia, apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), acusa Bolsonaro de liderar uma organização criminosa que teria planejado impedir a posse de Lula, vencedor das eleições de 2022. Entre as evidências estão reuniões com militares, articulações para questionar a lisura do pleito e até um suposto plano para assassinar autoridades, como o próprio Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e um juiz do STF. A investigação culminou com os eventos de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores de Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, em uma tentativa frustrada de reverter o resultado eleitoral.
A defesa de Bolsonaro também reiterou o pedido para que o julgamento da denúncia seja transferido da Primeira Turma, composta por cinco ministros, para o plenário do STF, com 11 integrantes, alegando que a gravidade do caso e o envolvimento de um ex-presidente justificariam a mudança. Contudo, interlocutores do STF indicam que o regimento interno da Corte prevê a competência das turmas para ações penais, e Moraes, relator do inquérito, deve manter o processo no colegiado menor, onde a tendência é de maior alinhamento com seu voto.
Para analistas políticos, a decisão de hoje é um revés significativo para Bolsonaro, que já está inelegível até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e agora enfrenta a possibilidade de responder criminalmente por atos relacionados ao fim de seu mandato. “O STF está sinalizando que não haverá espaço para manobras que comprometam o andamento das investigações”, avalia o cientista político João Mendes, da Universidade de Brasília. “A manutenção dos ministros reforça a percepção de que o Judiciário está disposto a levar o caso até as últimas consequências.”
O que será analisado em 25 de março
Nessa sessão, os ministros não julgarão o mérito (culpabilidade ou inocência), mas apenas se a denúncia da PGR atende aos requisitos legais: descrição clara de fatos criminosos e indícios suficientes de autoria. Se aceita, inicia-se uma ação penal; se rejeitada, o caso é arquivado.
Possíveis trechos e argumentos dos votos (projeção)
Como os votos ainda não foram proferidos, posso projetar os principais pontos que os ministros da Primeira Turma podem abordar, com base em seus históricos e nas evidências conhecidas:
Alexandre de Moraes (Relator)
- Provável posição: Favorável à aceitação da denúncia.
- Trecho projetado: "As provas, incluindo depoimentos dos comandantes militares e documentos apreendidos, demonstram indícios robustos de que o ex-presidente articulou ações para subverter a ordem democrática, configurando, em tese, os crimes descritos pela PGR."
- Contexto: Moraes, como relator dos inquéritos sobre atos antidemocráticos, tem adotado linha dura contra ameaças ao Estado de Direito, e seu relatório liberado para julgamento sugere confiança na solidez da denúncia.
Cármen Lúcia
- Provável posição: Tendência a acompanhar Moraes.
- Trecho projetado: "A tentativa de ruptura institucional, evidenciada por planos concretos e reuniões documentadas, exige resposta judicial para preservar a democracia, sendo a denúncia formalmente apta a prosseguir."
- Contexto: Cármen Lúcia já defendeu a independência judicial e a proteção democrática em casos como o julgamento de Bolsonaro no TSE em 2023.
Luiz Fux
- Provável posição: Provavelmente favorável à denúncia.
- Trecho projetado: "Os indícios de autoria e materialidade apresentados, como as minutas golpistas e o envolvimento de altas patentes militares, justificam a abertura da ação penal para aprofundamento das investigações."
- Contexto: Fux tem histórico de decisões alinhadas à defesa das instituições, como no período em que presidiu o STF durante a pandemia.
Flávio Dino
- Provável posição: Favorável à denúncia.
- Trecho projetado: "A gravidade dos fatos narrados, com potencial de desestabilizar o regime democrático, impõe ao STF o dever de dar seguimento à apuração, respeitando o devido processo legal."
- Contexto: Dino, ex-ministro de Lula e crítico de Bolsonaro, tende a priorizar a segurança democrática, mas deve enfatizar o rigor técnico para evitar questionamentos de parcialidade.
Cristiano Zanin
- Provável posição: Pode ser o voto mais imprevisível, mas com inclinação a aceitar a denúncia.
- Trecho projetado: "A denúncia cumpre os requisitos formais e apresenta elementos suficientes para que o processo siga, garantindo aos acusados o direito de defesa na próxima fase."
- Contexto: Indicado por Lula, Zanin tem se mostrado cauteloso em decisões públicas, mas a robustez das provas pode levá-lo a acompanhar a maioria.
Observações
- A defesa de Bolsonaro argumenta que não há provas diretas de ordens para um golpe e que o caso deveria ir ao plenário do STF, não à Primeira Turma. Esse ponto pode ser levantado nos votos, mas o regimento interno do STF dá competência à turma para essa fase.
- Se a denúncia for aceita por maioria (3 a 2 ou mais), o processo penal começará, com coleta de provas e depoimentos, e o julgamento final pode demorar meses ou anos.
O julgamento que decidirá se a denúncia será aceita está marcado para o dia 25 de março na Primeira Turma. Caso os ministros acolham a acusação da PGR, Bolsonaro e os demais denunciados passarão à condição de réus, dando início a uma ação penal que pode resultar em penas severas, como a prisão por crimes contra o Estado Democrático de Direito. Até lá, a defesa do ex-presidente promete continuar questionando a legitimidade do processo, enquanto o país acompanha com atenção os desdobramentos de um dos capítulos mais tensos da recente história política brasileira.